imagine um mundo em que você pode guardar tudo o que você vê em vídeo, com direito à zoom e à replay. parece legal?

esse mundo não existe (dã), a não ser num episódio da genial série de têvê britânica ‘black mirror.’

(não posso recomendar essa série com menos ênfase: é simplesmente sensacional. e mais: cada episódio vale por si só, não há repetição de atores nem de locações, o que quer dizer que você pode assistir a qualquer um, em qualquer ordem. e são só sete episódios no total, ou seja, você até pode se viciar, mas não vai dar tempo do seu cachorro morrer de fome até você acabar de assistir tudo.)

eu gosto de acreditar de que a tecnologia é neutra, que ela no máximo potencializa coisas que já existem dentro das pessoas. assim, por mais que uma tecnologia possa ser usada pra fins ruins, ela também poderia ser usada para fins bons (ou fins neutros.) com o poder de dar replay em qualquer momento da sua vida, o que você faria?

já dá pra imaginar as pessoas no ônibus assistindo a momentos felizes, sem prestar atenção no que se passa em volta (não muito diferente do que já acontece, admito.) muita gente ía ficar revendo aquela transa gostosa numa noite solitária (ou durante uma transa ruim,) como de fato acontece no episódio de black mirror. também seria possível dar zoom num detalhe importante que seja impossível de ver, pra procurar uma pessoa amiga num lugar lotado ou pra anotar aquele rabisco do professor do outro lado da lousa.

numa época em que muita gente fica de olhos brilhando com as possibilidades do avanço tecnológico, black mirror tenta nos lembrar de que esses avanços podem dar muito errado. e errado não porque a tecnologia é má, mas porque nós pessoas humanas podemos ser muito ruins. black mirror nos lembra de avançar com atenção. (sempre lembro do entusiasmo tecnológico da belle époque, que culminou no que culminou.)

será que seria desejável ter todos os momentos de nossa vida disponíveis a um clique de distância? poderíamos reaprender com algum erro passado, ou nos prepararmos melhor pra uma palestra, mas também dá pra imaginar um casal revendo uma briga pra ver quem tem razão. ~ insira calafrios aqui ~

o enredo desse episódio me lembrou muito o conto do jorge luis borges, ‘funes, o memorioso.’ no conto, a pessoa-narradora conta a história desse tal de funes, um cara que lembrava perfeitamente de absolutamente tudo. a pessoa-narradora conta que

duas ou três vezes [funes] havia reconstituído um dia inteiro [da memória], não havia vacilado vez alguma, mas cada reconstituição havia requerido um dia inteiro. (grifo meu.)

a pessoa-narradora fala de funes com gravidez: afirma que ele não consegue pensar. “penso, logo sou,” vem à mente. para a pessoa narradora, pensar é esquecer diferenças, abstrair, generalizar. para funes, um mesmo cachorro visto uma hora depois de uma perspectiva diferente é um ser tão diverso do anterior a ponto de merecer um outro nome. por mais que generalizar faça com que percamos detalhes importantes, sermos assim (e não como funes,) é sermos humanos.

o sonho de uma memória perfeita agora parece menos interessante, quiçá inútil. mas não é disso exatamente de que o episódio de black mirror fala. se você, pessoa-leitora, quiser saber, vá lá ver :)

o episódio de black mirror de que falo é ‘the entire history of you,’ S01E03. tem no netflix, e um passarinho azul me contou que está disponível no seu saite de torrent favorito. ps: se alguém quiser traduzir as legendas pro português (caso elas não existam ainda,) eu posso ajudar.

o conto do borges está disponível aqui, em espanhol. se procurar com carinho na sra. gúgou você acha em português ou em inglês.